Rumo ao abismo inevitável?

postado em: Home | 1
PARIS;FRANCE – JULY 15: French philosopher and sociologist Edgar Morin poses at his home on the 15th of July 2004 in Paris,France. (Photo by Ulf Andersen/Getty Images)
Por Edgar Morin – Especial para Le Monde 2010


O progresso científico permitiu a produção e a proliferação de armas de destruição em
massa -nucleares, químicas e biológicas. O progresso técnico e industrial provocou um
processo de deterioração da biosfera, e o círculo vicioso entre crescimento e
degradação ambiental se amplia. A globalização do mercado econômico, sem
regulamentação externa nem auto-regulamentação verdadeira, criou novas ilhas de
riqueza, mas também zonas crescentes de miséria; ela provocou e vai continuar a
provocar crises sucessivas, e sua expansão se dá sob a ameaça de um caos para o qual
ela própria contribui em muito. Os avanços da ciência, da técnica, da indústria e da
economia que vão levar a nave Terra adiante a partir de agora não são regulados nem
pela política, nem pela ética. Assim, o que parecia dever assegurar o progresso certeiro
traz consigo possibilidades de progresso futuro, é verdade, mas também gera e
intensifica os perigos.

Os fenômenos acima citados são acompanhados por diversas regressões bárbaras. As
guerras se multiplicam no planeta e, cada vez mais, são caracterizadas por seus
componentes étnico-religiosos. A consciência cívica perde espaço em toda parte, e
violências de diversos tipos corroem a sociedade. A criminalidade mafiosa tornou-se
planetária. A lei da vingança toma o lugar da lei da Justiça, arrogando-se o papel da
verdadeira justiça.

As concepções maniqueístas dominam os espíritos, fazendo-se passar por racionalidade.
Os loucos de Deus e os loucos pelo ouro agem sem freios. Existe uma conexão entre as
duas loucuras: a globalização econômica favorece o financiamento do terrorismo, que
busca desferir um golpe mortal contra a mesma globalização. Nessa área, como em
outras, a barbárie odiosa vinda dos confins dos tempos históricos se soma à barbárie
anônima e gelada própria de nossa civilização.

As comunicações se multiplicam no planeta, mas a falta de entendimento aumenta. As
sociedades são cada vez mais interdependentes, mas estão cada vez mais dispostas a
se destruir mutuamente.

A ocidentalização toma conta do mundo, mas provoca reações de encerramento em
torno de identidades étnicas, religiosas e nacionais. As certezas irracionais voltam a
provocar desentendimentos, mas a racionalidade abstrata, calculadora, “”economística”,
administradora e tecnocrata é incapaz, também ela, de compreender os problemas em
suas dimensões humanas e planetárias. Os espíritos abstratos enxergam a cegueira dos
fanáticos, mas não sua própria cegueira. As duas cegueiras, a da irracionalidade
concreta e da racionalidade abstrata, se unem para lançar uma sombra escura sobre o
novo século nascente.

Já chamei a atenção, há muito tempo, para o fato de que o Oriente Médio se encontra
no centro de uma zona sísmica planetária onde se confrontam as religiões entre elas, as
religiões e o espírito profano, o Oriente e o Ocidente, o Norte e o Sul, países pobres e
países ricos. O conflito israelo-palestino, no coração dessa zona sísmica, constitui, ele
próprio, uma espécie de câncer cuja metástase corre o risco de se espalhar pelo
planeta.

As intervenções maciças das Forças Armadas israelenses em território palestino e os
atentados suicidas em território israelense intensificaram um ciclo vicioso infernal que já
deixou de ser localizado. De fato, a repressão mortífera israelense desencadeou uma
onda inusitada de sentimento antijudaico no mundo muçulmano, onda esta que retomou
os temas antigos do anti-semitismo cristão e do antijudaísmo nacionalista ocidental, de
tal modo que o ódio por Israel se generalizou, tornando-se ódio ao judeu. A violência
cega dos suicidas palestinos, somada aos atentados da Al Qaeda, ampliou a onda de
sentimento antiislâmico -não apenas em Israel, mas também no Ocidente, não apenas
entre os judeus da diáspora, mas mais amplamente, em meios diversos, como mostra o
livro de Oriana Fallaci contra o islã (“”La Rage et l’Orgueil” -a raiva e a presunção),
religião que é identificada com sua vertente fanática e regressiva.

O agravamento da situação pode criar novos focos de conflito no interior dos países.
Com sua numerosa população de origem muçulmana e sua significativa população de
origem judaica, a França vem conseguindo, até agora, evitar que a violência dos jovens
de origem norte-africana e a exasperação pró-israelense levem a um confronto. Um novo
conflito no Oriente Médio provocaria a intensificação do ódio e da violência, e a França
laica se transformaria em palco de uma guerra étnico-religiosa entre dois setores de sua
população. Além disso, embora sua criação não tenha ligação com o conflito israelo-
palestino, a Al Qaeda, após os atentados no Quênia, adotou a causa palestina para
justificar seus massacres. O círculo vicioso israelo-palestino se globaliza, o círculo
vicioso Ocidente-islã se agrava. A guerra do Iraque vai eliminar um tirano horrível, mas
intensificará os conflitos, os ódios, as revoltas, as repressões e os terrores e corre o
risco de converter uma vitória da democracia em vitória do Ocidente sobre o islã. As
ondas de antijudaísmo e de antiislamismo ficarão mais fortes, e o maniqueísmo se
instalará, num choque entre barbáries que será conhecido como “”conflito de
civilizações”.

O líder da maior potência ocidental virou aprendiz de feiticeiro. Em sua luta míope contra
os efeitos do terrorismo, ele fortalece as causas do mesmo; em sua oposição à
regulamentação econômica e ambiental, favorece a degradação da biosfera.

A barbárie do século 20 desencadeou sobre múltiplas regiões da humanidade os flagelos
de duas guerras mundiais e dois supertotalitarismos. As características bárbaras do
século 20 continuam presentes no século 21, mas a barbárie do século 21, cujo prelúdio
já foi visto em Hiroshima, encerra em seu bojo a autodestruição potencial da
humanidade. A barbárie do século 20 gerou os terrores policiais, políticos e dos campos
de concentração. A barbárie do século 21 traz em seu bojo, desde 11 de setembro de
2001, um potencial de terror planetário ilimitado.

Os países não podem resistir à barbárie planetária de outro modo senão se fechando
sobre eles mesmos de forma regressiva, o que reforça essa barbárie. A Europa é incapaz
de afirmar-se politicamente, incapaz de abrir-se com sua reorganização, incapaz de
recordar que a Turquia é uma grande potência européia desde o século 16 e que o
Império Otomano contribuiu para a civilização européia (ela esquece que é o cristianismo
que, no passado, se mostrou intolerante em relação a qualquer outra religião, enquanto
o islã otomano e da Andaluzia aceitava o cristianismo e o judaísmo). No plano mundial,
as instâncias de conscientização são dispersas. A internacional cidadã em formação é
embrionária. Ainda não surgiu uma sociedade civil planetária. A consciência de uma
comunidade de destino terrestre permanece disseminada. Ainda não foi formulada
nenhuma alternativa real.

A idéia de desenvolvimento, mesmo o desenvolvimento dito “”sustentável”, toma como
modelo nossa civilização em crise, a mesma civilização que seria preciso reformar. Ela
impede o mundo de encontrar formas de evolução outras que as inspiradas no Ocidente.
Ela impede o surgimento de uma simbiose das civilizações, simbiose que pudesse integrar
o melhor do Ocidente (os direitos humanos, os direitos da mulher, as idéias
democráticas), mas excluir o pior. O próprio desenvolvimento é movido pelas forças
descontroladas que conduzem à catástrofe.

Em seu livro “Pour un Catastrophisme Eclairé” (por um catastrofismo esclarecido), Jean-
Pierre Dupuy propõe que se reconheça a inevitabilidade da catástrofe, para que
possamos evitá-la. Mas, além do fato de que o sentimento da inevitabilidade pode levar
à passividade, Dupuy faz uma identificação excessiva entre provável e inevitável. O
provável é aquilo que, a um observador num tempo e num lugar dados, dispondo das
informações mais confiáveis, parece ser o processo futuro. E, de fato, todos os
processos atuais conduzem à catástrofe. Mas o improvável nem por isso deixa de ser
possível, e a história passada já nos mostrou que o improvável pode tomar o lugar do
provável, como foi o caso no final de 1941 e início de 1942, quando a provável longa
dominação do império hitleriano sobre a Europa se tornou improvável, dando lugar a uma
provável vitória aliada. De fato, todas as grandes inovações da história romperam com
as probabilidades: foi o caso da mensagem de Jesus e Paulo, daquela de Muhammad, do
desenvolvimento do capitalismo e, mais tarde, do surgimento do socialismo.

Assim, a porta permanece aberta ao improvável, mesmo que o crescimento mundial da
barbárie torne isso inconcebível neste momento.

Paradoxalmente, o caos em que a humanidade corre o risco de mergulhar traz em seu
bojo sua própria e última oportunidade. Por quê? Para começar, porque a proximidade do
perigo favorece as instâncias de conscientização, que podem então multiplicar-se,
ampliar-se e fazer surgir uma grande política de salvação do mundo. E, sobretudo, pela
seguinte razão: quando um sistema é incapaz de resolver seus problemas vitais, ou ele
se desintegra, ou é capaz, dentro de sua própria desintegração, de metamorfosear-se
num metasistema mais rico, capaz de buscar soluções para esses problemas. A
humanidade se vê incapaz, neste momento, de resolver seus problemas mais vitais, a
começar pelo problema de sua sobrevivência. Ela é tecnicamente capaz, mas
politicamente incapaz de eliminar a fome no mundo. Essa incapacidade chega ao auge,
hoje, no paradoxo argentino, no qual a produção de alimentos é cinco vezes superior às
necessidades da população, e, ao mesmo tempo, grande número de crianças sofre de
desnutrição grave (25% delas, no caso da Província de Tucumán). De fato, no mundo de
hoje, é impossível realizar o possível.

Aqui, torna-se útil a idéia de feedback retroativo positivo. Essa noção, formulada por
Norbert Wiener, designa a ampliação e a aceleração descontroladas de uma tendência
no interior de um sistema. No mundo físico, um feedback positivo sempre leva esse
sistema à desintegração. No mundo humano, porém, como observou Magoroh Maruyama,
o feedback positivo, ao desintegrar estruturas petrificadas, pode suscitar o surgimento
de forças de transformação e regeneração. A metamorfose da lagarta em borboleta nos
oferece uma metáfora interessante: quando a lagarta entra no casulo, ela opera a
autodestruição de seu organismo de lagarta, e esse processo é, ao mesmo tempo, de
formação do organismo da borboleta, que será, ao mesmo tempo, a mesma que a lagarta
e a outra.

Essa é a metamorfose. A metamorfose da borboleta é pré-organizada. A metamorfosedas sociedades humanas em uma sociedade mundial é aleatória, incerta e submetida aos
perigos mortais que, no entanto, são necessários a ela. Também a humanidade corre o
risco de naufragar no momento em que dá à luz seu futuro.

Entretanto, assim como nosso organismo traz em seu bojo células tronco indiferenciadas
e capazes, como as células embrionárias, de criar todos os diversos órgãos de nosso
corpo, também a humanidade possui as qualidades genéricas que permitem criações
novas; se é verdade que essas qualidades se encontram adormecidas, inibidas sob o
peso das especializações e da rigidez de nossas sociedades, então as crises
generalizadas que as abalam e abalam o planeta podem suscitar a metamorfose que já
se tornou vital. É por essa razão que é preciso passar pela desesperança para encontrar
a esperança.

  1. Martha

    Qual deve ser a atitude, o comportamento do sujeito, individualmente, nesse processo macro da evolução do Homem?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *