A seguir a transcrição em português da HQ publicada no site oficial do SESC SP em homenagem ao filósofo Edgar Morin.

Texto: Lia Zatz / Arte: Zaire Publicação: SESC/SP

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https://sescdigital-downloads.s3-us-west-2.amazonaws.com/HQ_EdgarMorin_port.pdf

Edgar Morin é considerado o criador do pensamento complexo. Nascido em Paris, mas cidadão planetário. Sociólogo? Filósofo? Historiador? Biólogo? Antropólogo? Nada disso ou tudo isso. E muito mais.

Um pensador, que não se vê etiquetado. Que navegou por essas e outras disciplinas e produziu uma obra monumental. Obra entrelaçada e inseparável de sua vida. Vida que rege pelo lema inspirado em verso do poeta espanhol Antonio Machado: “Caminhante, não há o caminho. O caminho se faz ao andar, ao andar se faz o caminho”.

EDGAR MORIN: ANOS 60 – RENASCIMENTO

Os anos 1960 foram de descobertas, reflexões e pesquisas fundamentais na minha vida. Descobri a América do Sul. Fiz longa viagem por vários países e fiquei fascinado pela grande diversidade humana.

Fui testemunha das revoltas de maio 68, que eu revelava escrevendo para o jornal Le Monde, sem embarcar nas ilusões dos grupos trotkistas e maoístas que achavam que a revolução estava acontecendo.

O Movimento era libertário, espontâneo, antiautoritário, antissociedade do consumo, sem nenhum objetivo de tomar o poder.

E, na França, não ficou confinado aos estudantes, causou uma explosão geral, incorporando artistas, intelectuais e trabalhadores.
Não houve revolução, mas muita coisa mudou. Deixou herança…

Não muito depois, fui convidado a passar um ano no Instituto Salk de Biologia, na Califórnia. Convivi com cientistas importantes e adquiri conhecimentos sobre vários temas: A Fantástica revolução que acontecia na Biologia, a Teoria dos sistemas, cibernética, auto-organização…foi quando começaram a germinar as
ideias que me levaram ao pensamento complexo.

Queria entender o ser humano como um todo. Ele é 100% biológico. Mas ele também é 100% cultural. Os atos mais biológicos são também culturais.

Essa estadia na Califórnia significou de fato um renascimento. Uma vida intelectual riquíssima. A convivência com a contracultura jovem. E o despertar da consciência ecológica, na compreensão de que o homem depende mais da biosfera do que ela dele!

EDGAR MORIN: O ROMPIMENTO COM O PARTIDO COMUNISTA

No fim da segunda guerra, eu e meus amigos, todos anti-stalinistas, ainda tínhamos a ilusão da confraternização entre camaradas…

Num partido que representava a classe operária e a esperança do comunismo mundial.

Minha ruptura com o comunismo se deu por etapas.

A primeira foi cultural. Eu e outros amigos fizemos resistência à cretinização intelectual quando o partido, por exemplo, começou a propagar que escritores como Camus, Sartre, etc eram reacionários!

Mas não ousávamos questionar a política do partido. Quem mandava era a União Soviética de Stalin, que não aceitava críticas. Eu sabia das coisas, ficava chocado, mas me calava:

-O processo contra Kravchenko-

O fuzilamento de Heinz Neumann-

E o que fizeram com a sua companheira Margarete Buber-Neumann

*Victor Kravchenko, alto funcionário do governo soviético, rompeu com o stalinismo e pediu asilo aos Estados Unidos. Em 1944, escreveu livros denunciando os campos de trabalho forçados e outras atrocidades

*Heinz Neumann, político e jornalista alemão comunista, com grande atividade e prestígio, ao se afastar do stalinismo foi julgado, condenado e fuzilado na URSS

*Margarete Buber-Neumann, também comunista alemã, foi enviada a campo de trabalhos forçados na URSS, após o fuzilamento do seu marido, e depois trocada com prisioneiros alemães e enviada a um campo de concentração nazista.

Eu não queria abandonar o partido.

Não renovei minha filiação, mas fingia que fazia parte.

No bairro, achavam que eu militava no trabalho.

No trabalho, que eu militava no bairro.

Até que um artigo que escrevi para L’Observateur provocou minha expulsão.

Recebi várias acusações estúpidas, inclusive a de caluniar Mao Tsé Tung.

Chorei, mas já no dia seguinte, senti uma verdadeira libertação!Por muitos anos, não atuei politicamente.

Até que fui despertado de novo.

O relatório Krushchev e os acontecimentos na Polônia e na Hungria, em 1956, causaram uma ruptura no meu pensamento.

Foi só aí que de fato me desintoxiquei e deixei de professar uma religião, pois era uma religião!

-Nikita Krushchev assumiu o poder na URSS após a morte de Stalin e elaborou documento divulgado no 20º Congresso do Partido Comunista que ficou conhecido como relatório Krushchev, com críticas a Stalin e ao culto à personalidade. O documento vazou e causou perplexidade e divisões nas fileiras comunistas mundiais.

-Tano na Polônia como na Hungria, revoltas por liberdade e melhores condições de vida e trabalho foram violentamente reprimidas por tropas soviéticas.

EDGAR MORIN: O INÍCIO DA CARREIRA CIENTÍFICA

Em 1950, entrei como pesquisador estagiário no CNRS, Centre National de la Recherche Scientifique, onde fiz carreira, chegando a ser diretor emérito. Foi uma grande sorte, pois lá tive total liberdade de pesquisa.

Sou um apaixonado por cinema desde a adolescência. E este foi meu primeiro tema de pesquisa no CNRS.A indústria cinematográfica cria ídolos que o público diviniza e, ao mesmo tempo, se identifica com eles.

Estudei esses ídolos em todas as dimensões: econômicas, sociais, religiosas etc. Sempre usando o mesmo método que comecei no livro sobre a morte: considerando os múltiplos aspectos e não um único.

No cinema, acontece um fenômeno complexo, em que temos uma dupla consciência. Vivemos através dos personagens, rindo, chorando, temendo. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que estamos no cinema e não na tela.

É verdade que os filmes hipnotizam, fazem perder um tanto o senso crítico, mas também é verdade que provocam uma empatia que desaparece na vida real. O mendigo vivido por Chaplin, por exemplo, as pessoas gostam dele, mas desprezam o mendigo que encontram na rua ao sair do cinema.

Outro exemplo: Personagens mafiosos, o espectador entende que são seres humanos complexos, ao mesmo tempo criminosos, violentos, mas que podem também ter aspectos louváveis, sentimentos, afetos.

EDGAR MORIN: OS PRIMEIROS ESCRITOS

No fim da guerra eu e Violette, companheira de estudos e da resistência, nos casamos.Os países aliados, vitoriosos, ocuparam a Alemanha.

Me apresentei como voluntário e fui nomeado oficial do exército francês de ocupação.

Perplexo, olhando aquele país destruído, me perguntava como era possível que aquela nação, que abrigou a mais rica filosofia, a mais bela música, uma cultura extraordinária, tenha sucumbido ao nazismo!

Eu precisava questionar e descrever aquela realidade tal qual ela se apresentava naquele momento.

Um estudo do presente, sem recuo, sem distância.

Um testemunho sociológico, um dos caminhos de estudo que percorri a vida toda.

Foi assim que escrevei meu primeiro livro.

Havia responsabilidade, sim, do povo alemão e necessidade de reparar os danos.

Mas, ao contrário de boa parte dos franceses e aliados, não o considerava culpado e portador do mal.

O livro era antinazista, mas não anti-alemão.

Em 1947, morávamos em Vanves, um subúrbio de Paris.

Quando Irene, nossa primeira filha, nasceu.

Uma ano depois, nasceu Véronique.

Eu escrevia para publicações ligadas ao Partido Comunista Francês, mas minhas discordâncias me fizeram perder esse ganha pão.Violette nos sustentava dando aulas de filosofia.

Eu me sentia um desempregado intelectual humilhado, fracassado, perdido…E então uma editora me propôs escolher um tema e escrever um livro para a sua coleção de história.

Escolhi a morte.

A morte era uma presença forte na minha vida: Minha mãe, amigos durante a guerra, o risco que corri na resistência…O tema me causava fascínio e reflexão…A ciência retardaria a morte?

O que significavam as atitudes humanas diante da morte e as crenças diversas de vida após a morte?Como pode o ser humano ter ao mesmo tempo horror da morte e arriscar a vida, seja por uma causa, seja para salvar outra vida?

Pesquisei um ano na Biblioteca Nacional, no meio de um mar de livros!

Eu tomava notas, cruzava-as e fui percebendo que estava criando um método em que era necessário religar conhecimentos dispersos, estudando diversas disciplinas: Biologia, Psicologia, Antropologia, Etnologia, Histórias, Religiões…Comecei a formar a base da minha cultura transdisciplinar.

Eu ainda não usava a palavra “Complexidade”, mas já a constatava em meus estudos.

Comecei a escrever um dos meus livros mais importantes.

No fim, o ano que começou triste, terminou feliz e produtivo!

A vida é essa coisa incrível que temos durante um certo tempo na Terra.

O amor, a comunhão, a participação dão sentido à vida e exorcisam a angústia da morte.

A morte me inspira um Hino à vida e ao amor!

EDGAR MORIN: RESISTÊNCIA

Conquistei minha liberdade.Contraditoriamente, quando a França perdeu a sua.Quando a Guerra estourou, em 1939Meu Pai, Vidal Nahoum, foi convocado.

Eu era filho único, órfão de mãe.

Meu pai, superprotetor, me obrigou a morar com uma tia.

Eu me sentia muito deslocado.

Ouvi no Rádio que os alemães se aproximavam e que os exames na Sorbonne estavam suspensos.

Eu tinha 19 anosDecidi partir.

Peguei o último trem para Toulose, ainda zona livre, antes da chegada das tropas nazistas.

Toulouse virou refúgio de estudantes da França inteira, meu trabalho era encontrar moradia e alimentação para eles.

Eu passava muito tempo na Biblioteca, obtive assim meu diploma universitário e mergulhei em leituras e estudos de várias disciplinas.Eu tinha o firme propósito de torna-me marxista.

O marxismo, me pareceu, explicava os problemas humanos, a sociedade humana, o mundo.

Eu era pacifista, mas só havia duas forças no mundo: O Nazismo e o Comunismo.

Minha formação, minhas leituras me imunizaram contra o stalinismo.

Mas havia a esperança de que seus defeitos fossem temporários.

Eu tinha dúvidas, era cético, mas ao mesmo tempo acreditava no futuro.

Acreditava que a vitória contra o nazismo podia trazer uma maravilhosa civilização socialista em todo o planeta!

Me anestesiei, por quê? era uma momento decisivo da guerra.

Eu tinha 20 anos e a necessidade de acreditar na salvação do mundo.

Tomei a decisão. Entrei no partido comunista e na ação clandestina.

O perigo, o medo da prisão, da tortura.

Da morte…eu queria viver. Tinha vivido ainda muito pouco.

Mas sobreviver não é viver.

Para participar na luta da humanidade, era preciso que eu arriscasse a minha vida…Risco de morte e, ao mesmo tempo, esperança.

Eu descobri o mundo!

Os amigos, a solidariedade, as festas…E, finalmente, a libertação!

A libertação de Paris, em 1944, foi um dos dias mais felizes da minha vida.

Um desses momentos de êxtase histórico que vivi.

EDGAR MORIN: ADOLESCÊNCIA

Passei minha adolescência numa Europa em Turbulência…

Com grave crise econômica, com lutas ferrenhas por conquistas democráticas e sociais……mas como o fracasso das forças progressistas e a ascensão de ditadores implacáveis.

Influenciado por esse clima, participei da ajuda aos anarquistas espanhóis.

Eu lia publicações libertárias, marxistas e comecei a acreditar na revolução, na emancipação do gênero humano.

Me envolvi com um movimento pacifista, formado contra o horror da primeira guerra mundial.

Eu queria viver toda essa ebulição, mas tinha um pai superprotetor.

E Teatral. Dizia que eu o mataria se fizesse isso ou aquilo.Foi assim quando combinei com um amigo de passarmos as férias na Grécia.

Íamos de navio, trabalhando como aprendizes de marinheiro.

Ele foi.

Eu não.

Foi assim quando eu quis ir com um grupo de estudantes prestar solidariedade aos refugiados espanhóis que tinham sido abrigados em verdadeiros campos de concentração na França!

Eu caía nas chantagens do meu pai. E me sentia um prisioneiro!

EDGAR MORIN: A GRANDE PERDA

Nesta foto, me vejo como uma criança amparada.

As pernas atrás de mim são como pilares de sustentação.

Com 9 anos, meu olhar revela segurança, serenidade.

Foi quando ganhei o prêmio do triciclo florido.

Mal sabia o que me esperava, não muito tempo depois.

Um dia, meu tio Jean veio me buscar na escola dizendo que meus pais tinha viajado.Eu não estranhei.

Meu tio, caso com minha tia Corinne, irmão da minha mãe, e seus filhos moravam na Rua Sorbier.

Fiquei com eles alguns dias.

Num desses dias, a mola que trabalhava na casa dos meus tios, me levou para brincar lá perto.

Na praça Martin Nadaud.

De repente, vejo meu pai, todo de preto!

Na mesma hora compreendi que minha mãe estava morta!Não falei nada, nem meu pai.

Só me disse para não pisar na grama!

A morte da minha mãe foi como uma Hiroshima interior!A mentira do meu pai foi para me proteger.

Mas me impediu de me despedir da minha mãe.

Nunca o perdoei!

A literatura foi um dos meus grandes refúgios e salvação.

Foi quando comecei minha formação.

Eu sentia um vazio e uma solidão enormes.

Minha mãe, que se chamava Luna, virou uma espécie de mito.

A lua sempre me provoca uma emoção tremenda!Não acreditava que minha mãe estava no céu.

A religião revelada não podia me trazer respostas.

Minha vida, a partir de então foi marcada pela dúvida.

Mas, ao mesmo tempo, pela necessidade de respostas de amor, de esperança, de comunhão.

É aqui, no cemitério Père Lachaise que minha mãe está enterrada.

Quanto eu tinha já uns 50 anos sonhei que minha mãe descia de um ônibus e se dirigia à uma estação de trem.Eu estava no seu caminho e a chamei.

Ela me beijou.

Senti que este foi o adeus do qual me privaram quando eu era criança.

EDGAR MORIN: O NASCIMENTO TRÁGICO

Nasci nesta Rua (Rue Mayran)

No 3º andar deste prédio

Minha mãe era linda e tinha muitos pretendentes. Escolheu meu pai.

Ela tinha uma grave doença cardíaca.

Ficou grávida e o médico lhe disseque um parto poderia ser mortal, para ela e para a criança.

Ela conseguiu interromper a primeira gravidez.

Mas não a segunda…Quando eu fiz 54 anos, meu pai me contou meu trágico nascimento numa carta que me emocionou muito.

Meu querido Edgar, em 8 de julho de 1921, passamos uma noite em claro.

Tendo que escolher, a decisão era salvar sua mãe.

Às 4h da manhã, escuto sons de palmadas.Os sons não paravam!

Aquilo durou muito tempo.

Abro timidamente a porta e vejo que o médico segura um pequeno corpo pelos pés.

Momentos intermináveis e, de repente, você dá um primeiro grito!

Sua mãe sobreviveu à expulsão e você, quase morto, estrangulado pelo cordão umbilical, foi ressuscitado pelo médico!

A vida de minha mãe necessitava da minha morte e minha vida devia provocar sua morte.

Sobrevivemos ambos e criou-se entre nós um forte vínculo de vida e morte.