Edgar Morin em sua conferência ao Fronteiras do Pensamento 2011

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“A primeira coisa que podemos pensar é que a atual crise econômica não é apenas uma crise econômica. Ela está ligada a outras crises. Creio que efetivamente, temos uma crise da civilização ocidental, temos uma crise das sociedades tradicionais que, sob a influência dessa máquina de ocidentalizar que é o desenvolvimento estão em crise, temos crises demográficas, temos crises do pensamento, especialmente essa impotência do pensamento em saber o que acontece, e estamos, grosso modo, em uma crise geral da humanidade, que assume formas diferentes e cuja crise econômica é uma dessas formas.
A crise geral da humanidade é a crise da humanidade que não consegue se tornar humanidade. É a crise da humanidade que não consegue se tornar humanidade.

Por que?

Porque todos os processos que conduziram essa humanidade a se reunir em um mesmo destino comum são, ao mesmo tempo, processos que nos conduzem a catástrofes futuras. E aqui indico dois aspectos contraditórios ou aparentemente contraditórios da globalização. Ela é a pior das coisas e a melhor das coisas que podem acontecer à humanidade.

Por que a pior das coisas?

Porque é um processo no qual a ciência permitiu à técnica desenvolver armas de destruição em massa que se multiplicam, com uma possibilidade crescente de serem utilizadas, pois os fanatismos, os isolamentos étnicos, os fundamentos religiosos criam condições propícias não apenas para múltiplos conflitos, mas talvez para um grande conflito.

Sabemos que o processo da nossa civilização técnica e da nossa economia conduziu à degradação da biosfera, à crise do meio ambiente, que ainda somos incapazes de deter e encontrar os meios para combatê-la.

Sabemos que a economia global, a economia globalizada, é uma economia que não tem nenhuma verdadeira regulação, e as crises que se sucedem desde 2008 nos mostram que essa regulação não existe.

O capitalismo financeiro é mais poderoso do que os Estados. Basta que uma agência de classificação de risco privada reduza a nota dos Estados Unidos para que o pânico tome conta das Bolsas de Valores e os Estados estremeçam, incapazes de regular e de debelar o que pode se tornar uma crise generalizada.
Assim sendo, o mundo tem novas ameaças e, como esses processos se aceleram e se agravam, evidentemente, a globalização é o pior, pois ela produz, ela nos conduz para catástrofes.


Mas, ao mesmo tempo, ela é o melhor porque, pela primeira vez, todos os seres humanos, de todos os continentes se encontram, sem que eles saibam, reunidos em uma mesma comunidade de destino. Sofrem os mesmos riscos, os mesmos problemas fundamentais, os mesmos perigos ecológicos, os mesmos perigos econômicos, os mesmos perigos vindos da possibilidade de guerras, e isso cria as condições para que nasça um novo mundo.

Essa missão, que Zygmunt Bauman conferia às gerações mais jovens, dizendo: “Vocês devem inventar novas formas de democracia”.


Mas o problema é que se trata de inventar uma sociedade, em escala mundial, que não seja feita sobre o modelo dos Estados nacionais, que não seja uma espécie de super, de mega Estado mundial a partir do modelo dos Estados nacionais.

Uma nova forma de organização política, assim como a democracia ateniense era uma democracia de cidades pequenas, de alguns cidadãos, se transformou em democracia das nações.
Hoje, há outra sociedade a ser criada na qual talvez a internet possa desempenhar um papel nessa democracia. Assim sendo, temos um problema absolutamente vital e fundamental que a comunidade de destino mundial nos revela, a possibilidade, talvez, de criar um mundo novo.”


Edgar Morin, sociólogo francês, discute o que chama de “crise geral da humanidade” em sua conferência ao Fronteiras do Pensamento 2011. Segundo Morin, a base para compreender a série de crises que estamos vivendo é a ambiguidade da globalização: por um lado, se os problemas contemporâneos agora são globais, por outro, as nações nunca antes foram tão interligadas em uma mesma “comunidade de destino”.


De acordo com o sociólogo, para encontrar respostas aos problemas atuais, é preciso abraçar o que ele considera o maior desafio atual: globalizar e desglobalizar ao mesmo tempo.
Para estimular a possibilidade de coexistência destas facetas aparentemente opostas, Edgar Morin passa por inúmeros campos da vida contemporânea, analisando problemas e oportunidades e conclui: diante de tantas incertezas, devem surgir novas apostas e estratégias que reconheçam os erros do caminho e que tentem abordagens inovadoras em direção a um mundo não perfeito, mas melhor.


Fronteiras do Pensamento | Produção Telos Cultural | Conferência Edgar Morin | Edição Alexandre Fernandez | Finalização Marcelo Allgayer | Tradução Francesco Settineri e Marina Waquil

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