Edgar Morin e a forte relação de amor, respeito com os animais

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Escolhemos alguns pequenos trechos de seus diários em diferentes ocasiões e situações onde Morin expressa sentimentos e seu modo de pensar sobre esses seres e seu papel no mundo e sua relação com os seres humanos.

Foto: Acervo Pessoal
Foto: Acervo Pessoal

 “Elas passam, oriundas dos mares árticos, para se encontrarem e se amarem nas águas
quentes da Baixa Califórnia. Elas vão em pequenos grupos, jogando, flertando, dando
cambalhotas, enormes e ágeis. Algumas vezes podemos ver rapidamente uma explosão
branca, um jato de água vigoroso… É o começo do mundo. É Bernardin de Saint Pierre…Não sei explicar como essas alegres baleias me deixam feliz”.

 Diário da Califórnia. Edições Sesc SP.2012. pg 231

Deste terraço à beira do mar, em Mission Bay, deste bistrô de pescadores à californiana (ou seja, por esporte e não por oficio), jogam-se migalhas de pão às gaivotas, aos pombos, aos pardais que se agrupam, os pardais mais ousados muito  próximos de nós, os pombos mais reservados mas menos  tímidos do que na França: as gaivotas, selvagens  ariscas, desconfiadas, permanecem a dois metros. Cada um por si. Cada um se esforça para picar o alimento do seu vizinho ou congênere.
Esse egoísmo individual arrebatado é ao mesmo tempo o menos individual;  ele se inscreve na seleção natural, e faz triunfar o mais vivo e o mais forte. Está  geneticamente pré-determinado pela espécie, pela salvação. da espécie.
      Cada um luta contra seus congêneres, portanto com sua própria espécie, mas ao mesmo tempo por sua própria espécie. O mesmo ato traz em si esses sentidos  contrários. É aí onde se pode sentir, entre outras, a ambivalência de tudo que está vivo.”

“O diário da Califórnia”. Edições Sesc SP.2012. pg 224

” O gato preto Othello veio passar três dias de  mossafir *  em nossa casa . Herminette e ele observaram-se durante horas. em seguida Herminette faz alguns avanços alegres. Após ter explorado tudo e feito o reconhecimento , ele se aclimatou e se instalou como se estivesse em sua casa, veio dormir em nossa cama impedindo Herminette de entrar no quarto E ainda foi comer sua ração. Ele se roça em mim. NO momento em que elegeu sua casa como seu domicilio, eis que chega Paul, coloca–o em sua cesta e leva-o embora, enquanto ele mia furiosamente.”
(pavra turca que signfica “convidado’, hóspede”).
Um Ano Sísifo. Edições Sesc SP.2012 .pp.342.343

“No momento de sair para o almoço na casa de JFR marcado para as 13hs procuramos em vão pela gata Herminettte no pequeno apartamento.”
“Após o almoço , volto logo para casa e procuro de novo debaixo das camas, das poltronas, etc em vão.”
inspeciono as cercas da vizinhança. Nada, como sempre. Edwige chama sem parar Herminette, fala com ela como se ela pudesse entendê-la. a angustia nos invade.”
“Perco as esperanças. A tristeza toma conta de mim ao mesmo tempo em que a tristeza de pensar na tristeza atroz de Edwige: essa dupla tristeza que é uma só, me acabrunha. Volto ao apartamento. Eu choro,. Edwige continua a chamar por Herminette.
Eis então, que a cabeça de Herminette surge debaixo de um sofá cuja base desaparecia sob um passamane de franjas esvoaçantes. Foi o único lugar que não inspecionei.. Seu corpo aparece lentamente, ela se alonga…Olhamos para ela estupefatos, aliviados, mas o alivio não apaga a enorme tristeza que levará tempo para se dissipar. Ah. A sem-vergonha, a safada….”

Um Ano Sísifo. Edições Sesc SP.pp58.59

“Passando perto dos barracões, esta manhã, ouvi latidos, com certeza era um cachorro que sofria anteontem.
(Esses sábios mutilam seus animais, inoculando-os de venenos e doenças com a mesma serenidade que os médicos da SS em Auschwitz experimentavam  nas cobaias humanas).
(A barreira ética homem/animal  deve cair; será estendendo ao animal a proteção de princípio da qual o homem se beneficia, ou retirando do homem essa proteção?). 

Diário da Califórnia .Edições Sesc SP. 2012. p.65 

.Zoológico. Califórnia
“Estamos ali Johanne e eu diante do condor de San Diego, pensando no condor do Rio/.Eis que o condor se aproxima e começa a bicar a grade como se nos pedisse para deixá-lo sair. Como para nos fazer entender que não e
stava pedindo para comer mas que sofre por ser assim prisioneiro , ele esfrega se pescoço deplorável na borda de cimente sobre a qual as grades estão plantadas, depois bica a grade, despois torna  esfregar o pescoço. ficamos tomados de impotência e vergonha incapazes de fazê-lo entender que não podemos fazer nada por ele.”. 
Diário da Califórnia .Edições Sesc SP. 2012. pg. 38

Com a colaboração de Nurimar Falci – nurimarfalci@uol.com.br

4 Responses

  1. Nurimar Maria Falci

    Herminette era a gata muito amada e mimada por Edgar e por sua falecida esposa Edwige citada muitas vezes em seus diários. Mais tarde eles adotaram uma outra gata vinda de Portugal, chamada Mixa para fazer companhia a Heminette.).Nurimar Falci

    Morin critica o uso cruel de animais como cobaias em nome da ciência.

    O Zoologicos , a prisão para os animais,a diversão para os seres humanos.

  2. Izabel

    Morin, sempre coerente às suas ideias de amor, respeito, solidariedade! Como um bom sociólogo e generoso com a diversidade das espécies e com a vida, sabe que não estamos sós no mundo, não dominamos os seres e, com os animais compartilhamos da aventura planetária!

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