“Contemplar o voo dos pássaros é arte e ciência”

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Em palestra em São Paulo, Edgar Morin entrelaça percepção e razão para propor uma nova forma de pensar

Por Leila Kiyomura

O sociólogo francês Edgar Morin, um dos pensadores mais importantes da contemporaneidade, completa 98 anos na próxima segunda-feira, dia 8. Mas tem a vitalidade de quem aprendeu a contemplar, como ele próprio costuma definir, a arte no voo dos pássaros. No dia 18 de junho passado, na palestra Arte e Estética, proferida no Sesc Pinheiros, em São Paulo, diante de uma plateia que lotou o teatro Paulo Autran, Morin defendeu que a arte é tão importante quanto a ciência para o desenvolvimento do homem e do planeta. Busca a compreensão do mundo globalizado desde as raízes do ser nos desenhos das cavernas pré-históricas.

O pensador francês Edgar Morin: “O artista é um xamã. Quando pinta, o seu estado criativo desperta emoções sobre o ser e a natureza como em um transe” – Foto: Alexandre Nunis/Sesc

Com o pensar afinado, Morin traz a história da humanidade com a destreza de quem percorreu os caminhos das culturas científicas e humanas de todos os povos. É uma proeza mental acompanhar as suas reflexões sobre xamanismo, arte, literatura, filosofia… “O artista é um xamã. Quando pinta, o seu estado criativo desperta emoções sobre o ser e a natureza como em um transe”, observa. “Emoções que experimentamos também ao ler um romance de Balzac, Tolstoi, Dostoiévski e Jorge Amado, criadores de personagens cujas histórias podem influenciar a nossa existência.”

Andar firme, uma echarpe vermelha iluminando a camisa e o terno azul marinho, Morin faz questão de fazer a sua palestra em pé. Gesticula, abre os braços, fecha os olhos e lembra a sua intimidade com o Brasil saudando e sorrindo: “Podem trocar o meu copo de água por outro com caipirinha,  mas com pouco açúcar”.

Enquanto fecha os olhos para voar por temas que sintetizou em cerca de 50 livros, a plateia atenta procura decifrar o seu “pensamento complexo”, defendido por uma corrente que mostra a importância de todas as áreas que tecem a razão e a emoção do ser. E entrelaça a arte e a ciência, o real e o imaginário, a percepção e a razão. Morin se faz entender buscando exemplos na sua própria história:  “Sempre gostei de desenhar. Fazia caricaturas dos amigos como eu os imaginava. Mas, quando me pediam para fazer um retrato sentando na minha frente, eu precisava desenhar com a razão e não saía nada. A criatividade desaparecia”.

Reflexões e histórias que compõem a clareza do pensamento complexo e da perenidade de seu estado poético. “Hoje, o poder econômico tenta desqualificar os valores da criatividade. Esse poder da modernidade quer igualar a todos e nos transformar em máquinas, robôs, priorizando as vantagens da tecnologia.” Para Morin, a solução contra a degradação do pensamento e dos valores da sociedade contemporânea está na junção da cultura científica e da cultura das humanidades.

Em sua obra, Morin lança-se ao desafio de refletir sobre a construção de um conhecimento para o futuro.

Edgar Morin é referência nos estudos das ciências humanas. “Em sua obra, Morin lança-se ao desafio de refletir sobre a construção de um conhecimento para o futuro: percepções, por exemplo, são panoramas que criam contrastes críticos em nosso conhecimento e atitudes no mundo”, explica a professora Carmen Aranha, docente do Programa Interunidades de Estética e História da Arte da USP e curadora do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. “Os estímulos e tensões vividos devem nos possibilitar a construção de uma linguagem mais fluida. Para tal, o pensador afirma que precisamos ficar longe de pensamentos absolutos, determinantes de doutrinas e ideologias racionalistas que o extraem de seu contexto, erro mais comum que cometemos e que nos desvia da razão intencionada por uma consciência viva.”

A professora lembra a citação  de Morin em seu livro Os  Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro: “Na lógica organizadora de qualquer sistema de ideias, resistimos à informação que não nos convém ou que não podemos assimilar”. E observa que é preciso fazer o exercício de incorporar saberes não sistematizados, multidisciplinares e interdisciplinares. “O conhecimento deve desmanchar o tecido da tradição e puxar os fios da não coincidência sem procurar sínteses apaziguantes.”

Segundo Carmen, a frase pode ser estendida à arte como forma de conhecimento, como diz Morin, e também à própria estética. “O desmanche dos tecidos da tradição exige uma racionalidade alargada, na qual a arte e a fruição artística estão juntas aos processos criadores que se realizam no mundo da vida”, afirma a professora. “Como o pensador sugere, a estética pode ser apreendida com a obra de arte e também se realizar com o olhar lançado aos detalhes da vivência no mundo. Detalhes que, num exemplo, podem ser entendidos como apreensões da forma artística construída por signos diversos que, entrelaçados, acabam por situar uma estética correlacional: a busca de marcas que tecem outras dimensões e suas atmosferas.”

O pensador reconhece a arte, em suas diferentes formas de expressão, como uma forma pulsante de vida, como uma escolha humana de abrir-se a uma existência poética.

A visão multidisciplinar da realidade de Edgar Morin está também nos estudos de Gabriela Abraço, crítica de arte e doutoranda da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e da École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), de Paris. na França. “O pensador reconhece a arte, em suas diferentes formas de expressão, como uma fonte pulsante de vida, como uma escolha humana de abrir-se a uma existência poética”, analisa. “Essa produção artística compreende a reflexão sobre os dilemas reais do ser humano, com todas as mazelas e tristezas que fazem parte de nossa aventura na Terra. Segundo Morin, os percalços são inerentes à condição humana, e olhar a vida com uma perspectiva poética nos trará uma condição mais humanizadora e leve de lidarmos com as dificuldades.”

“Edgar Morin promove uma reforma no pensamento ao colocar como único modo possível para o pensamento a inclusão das contradições, a inclusão do dissenso e das incertezas, o que denominou de pensamento complexo”, comenta Simone Abreu, doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam) da USP e professora de Artes Visuais da Faculdade de Artes, Letras e Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). “Nos livros que escreveu sobre o assunto, ele alertou que o conhecimento complexo não é completo. Pelo contrário, ele sabe que o conhecimento completo é impossível, pois o conhecimento complexo implica o reconhecimento de um princípio de incompletude e de incerteza.”

Segundo Simone, a reforma no pensamento pretendida por Morin constitui uma “hecatombe que desafia os pensadores a abdicar de suas certezas, abandonando convicções acumuladas para se lançar a realmente conhecer e refletir sobre o mundo e não reconhecer o mundo, um mundo incerto e inseguro, por mais que o mercado queira vender a ideia oposta para facilitar as homogeneidades entre culturas e assim garantir vendas rentáveis de produtos similares, como se as necessidades, os desejos e os sonhos fossem iguais, eliminando e nos afastando da complexidade e diversidade do mundo”.

Pluralidade, abertura à multiplicidade de experimentações, complexidade e multidirecionamento são características intrínsecas da arte contemporânea, como bem lembra Simone, que faz um paralelo com a sala de aula de artes, ambiente que lhe é familiar. “As produções contemporâneas são conteúdos relevantes para estabelecer aulas de arte em todos os níveis escolares, porque promovem significativas experiências que trazem as incertezas de um mundo plural, multidirecional, que nos empurra às interpretações e reflexões que fogem dos livros e artigos de autores legitimados para dar espaço à projeção do contexto do cotidiano do aluno e também do professor. Ou seja, ao nos vermos nesse mundo plural, complexo, inseguro e incompleto que a obra apresenta, é provável que se estabeleça o início do exitoso processo de ‘ensino educativo’, usando um termo de Edgar Morin.”

Como, então, universalizar a apreciação estética, se ainda hoje o acesso à arte continua restrito a poucos?

A crítica e historiadora da arte Sylvia Werneck, doutora pelo Prolam, observa que, na avaliação de Morin, o mundo perdeu o rumo diante da vida pautada pelos valores econômicos. “Como explica Morin, quando os interesses financeiros sobrepujam os interesses comunitários, põe-se em marcha a ruína das sociedades. A ganância imediatista faz com que nos esqueçamos de cuidar uns dos outros e de preservar o planeta para o usufruto de nossos descendentes. É nesse terreno que suas crenças servem a uma fruição artística passível de ser democratizada.”

Para Morin, a arte é o que move o espírito. “O sentir é necessário à alma, é onde todos são iguais, independentemente de posição ou privilégio. Como, então, universalizar a apreciação estética, se ainda hoje o acesso à arte continua restrito a poucos?”, questiona a historiadora. “A proposta de Morin, tão necessária em tempos de individualismo e intolerância, é desvincular o deleite estético das obras de arte classificadas como tais, ampliando a vivência para tudo o que nos cerca. De certa forma, é como se recomendasse inverter o sentido, valorizando, então, como fruição estética, a apreciação do que nos move o espírito. Se damos ou não a isso o nome de arte é questão de menor importância. O segredo está em se deixar encantar.”

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