Chronique d’un été (1962)

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Chronique d’un été (Crônica de um verão) é um documentário realizado durante o verão de 1960 pelo sociólogo Edgar Morin e pelo antropólogo e cineasta Jean Rouch, com a estética colaboração do cinegrafista Michel Brault. O filme começa com uma discussão entre Rouch e Morin sobre se é ou não possível agir com sinceridade na frente de uma câmera. Um elenco de indivíduos da vida real é então apresentado e conduzido pelos cineastas para discutir tópicos sobre os temas da sociedade francesa e a felicidade da classe trabalhadora. No final do filme, os cineastas mostram aos seus sujeitos as imagens compiladas e fazem com que os sujeitos discutam o nível de realidade que achavam que o filme obteve.

Este longa foi filmado em Paris e em Saint-Tropez, França.

É amplamente considerado um filme experimental e estruturalmente inovador e um exemplo de cinema-verdade.

Um esforço conjunto do etnógrafo e cineasta francês Jean Rouch e do sociólogo francês Edgar Morin resultou nesta notável investigação documental de 1961 sobre o que os parisienses – considerados como uma “tribo estranha” – pensavam e sentiam durante o verão de 1960. Foi quando a guerra na Argélia ainda era um assunto quente, embora muitos outros tópicos sejam discutidos também, tanto privados como públicos. No início, pergunta-se a todos, simplesmente: “Você é feliz?” De maneira mais geral, o filme captura a mudança de teor emocional de algumas vidas durante um determinado período.

Os cineastas tratam os entrevistados com muito respeito e sensibilidade. O filme se passa basicamente em torno de sete personagens não atores: Ângelo, operário especializado da Renault; Landry, imigrante do Congo; Marilu, uma secretária italiana; Marceline, uma judia que ainda muito jovem havia sido deportada para o campo de concentração de Auschwitz; Gabillon, empregado da Societé Nationale de Chemins de Fer Français (SNCF), e sua esposa; e Jean-Pierre, estudante de 20 anos.

Não só vemos esses indivíduos em diversos grupos, mesmo em férias em St.-Tropez; também vemos muitos deles se tornando amigos ao longo do filme. Finalmente, Rouch e Morin exibem um corte preliminar para os participantes e filmam suas respostas altamente divergentes, depois filmam sua própria autocrítica enquanto caminham juntos pelo Musée de l’homme.

A maior surpresa sobre esse trabalho seminal é que, embora seja feito por dois eminentes cientistas sociais, seu valor acaba tendo relativamente pouco a ver com antropologia ou sociologia. Rouch, como cineasta, já havia descoberto em seus documentários africanos inovadores que é melhor pegar as pessoas “sendo elas mesmas” se você filmá-las “representando a si mesmas”, e este filme é na verdade uma espécie de filme caseiro sobre a vida sendo vivida e autoconscientemente realizada por esses indivíduos tocando em interação uns com os outros e na frente da câmera.

Logo ficamos sabendo que Marceline – que anos mais tarde se tornaria a companheira e codiretora de Joris Ivens, o grande documentarista holandês – escolheu Jean-Pierre como sujeito da entrevista porque ele é um ex-namorado, e seus sentimentos sobre o relacionamento fracassado deles se tornam parte do processo discussão. A primeira vez que Marilou fala com Morin, ela está sozinha e à beira das lágrimas; na segunda vez ela está muito mais feliz e a vislumbramos brevemente com o namorado quando eles saem para passear (Jacques Rivette, por acaso, com quem ela escreveria mais tarde os roteiros). Rouch pergunta a Landry se ele entende o significado da tatuagem no braço de Marceline, e ela passa a explicar que é uma sobrevivente judia de um campo de concentração. Ainda mais do que suas obras etnográficas sobre os africanos.

Este filme, realizado no verão de 1960 pelo sociólogo Edgar Morin e pelo etnógrafo Jean Rouch, pretendia ser tão ‘verdadeiro quanto um documentário, mas com o conteúdo de um filme de ficção’. Facilitado por tecnologia aprimorada (filme de 16 mm, som sincronizado, câmeras portáteis leves), ele foi o pioneiro em uma estética direta ou ao vivo apelidada de ‘cinema-verdade’. Era para filmar a ‘vida verdadeira’, mas envolver em um nível subjetivo, fazendo com que as pessoas falassem sobre suas experiências e ambições e, mais notavelmente, se eram felizes ou não. O que surge é uma experiência cinematográfica absolutamente avassaladora, um filme que é profundamente comovente, mas também que faz você pensar. O filme começa com uma pesquisadora de mercado, Marceline, na rua, perguntando às pessoas se elas estão felizes ou não.

Morin sempre esteve convicto de que cada pessoa oculta em si um poeta, um filósofo, uma criança. Por isso a necessidade de fazê-las falar, garantir-lhes alguma visibilidade em seus problemas, desejos e inquietações cotidianos. Mais do que isso, as perguntas eram uma tentativa de acessar um substrato social mais denso. A questão não era saber se os entrevistados eram casos raros ou excepcionais, mas era uma forma de descobrir se os problemas particulares apresentados eram ou não profundos e gerais: “os do trabalho alienado, da dificuldade de viver, da solidão e da busca de uma fé – questões fundamentais que dizem respeito à vida de cada um” (Morin, 2010: 161)

O filme então passa a se concentrar em um conjunto de personagens. Morin foi criticado por sua abordagem estrutural, digitando seus personagens (ou seja, um operário, um pequeno burguês, um estudante), mas um sentido real dos indivíduos envolvidos transparece, notadamente nas sequências com Angelo e Landry conversando e Marceline contando-a experiência de deportação durante a guerra. A parte mais revolucionária deste filme é que os realizadores demonstram a impossibilidade da objetividade documental quando se filmam filmando – mostram como a verdade do filme é construída. Abundam as questões de autenticidade. No final do filme, eles o exibem para os personagens envolvidos. Mesmo aqueles que foram filmados são incapazes de decidir se estão atuando (‘exagerando para a câmera’) ou sendo eles mesmos. Morin e Rouch concluem que falharam em seu objetivo de oferecer uma fatia da vida, pois o próprio ato de filmar algo a transforma. A verdade é evasiva na tentativa de representar o cotidiano. Assista e se surpreenda.

FICHE TECHNIQUE

Un film de / a film by : Jean Rouch (France), Edgar Morin (France),

Avec : Avec Angelo, Nadine Ballot, Régis Debray, Lydie Doniol-Valcroze, Jacques, Jean-Pierre Landry, Marceline Loridan-Ivens, Marilu Parolini, Edgar Morin, Jacques Rivette, Sophie, Jean Rouch

Assistants : Claude Beausoleil, Louis Boucher

Images : Roger Morillère, Raoul Coutard, Jean-Jacques Tarbès, Michel Brault

Son : Guy Rophe, Michel Fano, Edmond Barthélémy

Montage : Jean Ravel, Néna Baratier, Françoise Colin

Musique Pierre Barbaud

Production : Anatole Dauman, Argos Films, Neuilly-sur-Seine (France)

Distribution : Argos Films, Neuilly-sur-Seine (France) – argos.films@wanadoo.fr

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